A sala de espera do consultório estava cheia e as cadeiras ocupadas. D. Antónia apoiou-se ainda mais na bengala castanha, fincou os lábios um no outro até a boca ser apenas um risco fechado e olhou à volta com olhos perscrutadores. Uma rapariga logo se levantou para lhe dar o lugar e D. Antónia foi-se sentando, cheia de cuidados demorados com ela mesma. Entremeava muitos ais com doloridos desabafos: «Ai, estas minhas costas!... Este meu reumático!... Ai, o meu bracinho!...» E ali ficou, à espera, de cabeça baixa, mergulhada em suspiros e tristezas. De vez em quando levantava os olhos, esticava um pouco o pescoço enterrado no cachecol de lã preta e perguntava à empregada do consultório: «Menina, ainda falta muito para a minha vez?». A empregada lá lhe respondia, com profissional paciência, debitando o número de pessoas que D. Antónia tinha à frente na lista de espera para a consulta.
E foi, exactamente, após o quinto massacre à empregada, quando esta lhe repetia que já não faltava muito, que D. Antónia foi surpreendida pelo timbre cheio e forte de uma voz de homem, vinda do corredor.
«Ora, então, muito boa tarde!»
O homem conversava com a empregada e ria. D. Antónia não percebia o que diziam mas aquela voz soava-lhe familiar e quente e acordava-lhe lembranças dos dias de sol do tempo de rapariga. Ligeiramente afogueada, afastou o cachecol e alisou os cabelos com a mão.
O homem entrou na sala, olhou ao redor e repetiu o boa tarde. Que sobressalto! Os anos passavam e ele continuava elegante de corpo e bonito de cara, parecia que ainda mais bonito agora que os cabelos tinham definitivamente embranquecido. Comovida, D. Antónia deixou escapulir das mãos a bengala que caiu, com um barulho seco, no chão.
Por um momento, foi a surpresa no rosto do homem. Mas logo ele se aproximou, cruzando a sala a passos largos.
«Prima Antónia?!...»
«Primo!...»
Riram, cheios de contentamento, apertando-se mutuamente as mãos.
«Mas que prazer! Que prazer!...»
Mergulharam os dois na alegria do reencontro. D. Antónia, alheada da pressa na consulta, misturava as conversas e deixava as frases incompletas na ânsia das novidades.
«Da última vez que nos vimos foi num momento tão triste, no funeral do meu marido», lembrava ela, «nem fiquei então a saber novidades da vida do primo.»
Mas logo ali se fez o ponto da situação: ele também já estava viúvo. «Também se foi de repente, a minha pobre mulher, coitadinha...», lamentou-se, e logo D. Antónia, pesarosa, concluiu: «Estamos os dois na mesma situação.»
Ele também já tinha regressado de vez da Alemanha. Tinha-se reformado e decidira voltar. É verdade que os filhos tinham ficado lá pelas Alemanhas, até tinham casado com alemãs, os netos eram “alemanitos”, nem sabiam falar o português. «Mas esta sempre é a nossa terra, não é?».
D. Antónia concordava e abanava a cabeça, as bochechas muito rosadas.
Chegou-se mais à prima e segredou: «Não é para me gabar, tenho uma óptima reforma, trouxe lá da Alemanha uns bons dinheiritos, comprei cá uns terrenos, umas casinhas, agora tudo o que quero é descanso e sossego para gozar o que possuo e o resto da vida.» E acrescentou, a limpar ligeiramente os olhos com as costas da mão: «O único desgosto que tenho é esta solidão da viuvez».
Esquecida por completo das dores que lhe tolhiam os movimentos e não a deixavam mexer-se à vontade, D. Antónia puxou a cadeira para junto do primo, cruzou uma perna sobre a outra, ajeitou a saia, dobrou-se um pouco para mais confidencialmente conversar, e perguntou: «Desculpe a indiscrição, mas o primo nunca pensou em voltar a casar?»
Ele arqueou ligeiramente as sobrancelhas, abriu devagar as mãos e adiantou: «Não é que me ache velho mas, quando se chega a esta idade, já não se tem muita paciência para começar tudo de novo com uma pessoa desconhecida.»
A empregada chamou por D. Antónia, tinha chegado finalmente a vez para a consulta. Ela levantou-se, fez menção de se despedir: «Pois é, primo, uma pessoa desconhecida é um problema.»
Mas ele não se quis despedir:
«A prima dá-me licença que eu a espere no final da sua consulta? Gostava de saber dos seus filhos, mal conversámos no funeral. Entretanto, aproveito para tratar, ali com a empregada, da credencial que cá vim buscar. É um papel para as termas. Sabe, sou um adepto da medicina preventiva e as termas são uma coisa óptima para conservar a rijeza do corpo e a saúde do espírito.»
(continua)
anamar - 1989